Histórias do Batalhão da Guarda Presidencial
 
   
   

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12 DE SETEMBRO DE 1963 - O LEVANTE DE BRASILIA
   
   
Um testemunho e algumas observações
   
     
Ary dos Santos (*)
   
           
   

OOOCorria o ano de 1963. O quadro político-social brasileiro era, mais do que indefinido, extremamente confuso. Na área militar, a situação era  intranqüila pelas ações e omissões de um Governo que pouco produzia e, quando falava, somente se externava por ideais e símbolos da esquerda que arrastavam muitos incautos, com idéias falsas e, como sempre, com  objetivos eleitoreiros.
OOOEm Brasília – na época, já  capital de direito mas ainda não integralmente  de fato -  era esse o clima por volta de agosto. A única Unidade  do Exército aproximadamente completa na Capital era o Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), herdeiro  histórico do “Batalhão do Imperador”, que respondia pela segurança de todo o Distrito Federal, valendo-se para o cumprimento dessa extensiva e intensiva tarefa, do sistema de dupla-incorporação e do esforço de seus quadros para atender a todas as imposições. No quartel ao lado, onde se ergue  o Batalhão de Polícia do Exército (BPE), agrupavam-se núcleos não só daquele futuro batalhão  mas também de outras Unidades que iriam, com o tempo, enriquecer o efetivo militar do DF, além de um grupamento de pára-quedistas deslocados para Brasília a título de reforçar a segurança.
OOONa segunda quinzena de agosto, seca no auge, os oficiais do BGP, além de suas tarefas normais, foram chamados a atuar como Comandantes de frações de valor variável, inclusive dirigindo viaturas, para responder pelo patrulhamento das cidades satélites, tendo em vista que a Polícia Militar fora afastada dessa atividade em face de graves problemas ocorridos em algumas situações de conflito. Toda essa etapa de agitações conduzidas e/ou induzidas pelos líderes locais da esquerda, concluiu-se, na noite de 03 de setembro, com uma concentração na Praça 21 de Abril, na Avenida W-3.
OOOComo vários outros colegas, participara de todas essas atividades e preparava-me  para alguns dias mais calmos quando, na madrugada de 04 de setembro, recebi um telefonema de São Paulo, avisando-me ser iminente a chegada do meu primogênito.
OOOSomente graças à boa-vontade de todos – pois na época não existiam cheques especiais, cartões e nem mais do que dois vôos diários para a capital paulista - consegui, via Rio, ver meu filho  por volta das 14 horas, já com 6 horas nesse mundo.
OOOTerminados os dias de dispensa a que fazia jus pela legislação, retornei a Brasília pela tarde de 11 de setembro, em um vôo que, mais compatível com meus proventos, fazia duas ou três escalas. Um incidente com o aparelho, deixou-me em São Jose do Rio Preto, onde a muito custo, consegui concluir, via Goiânia, o vôo para o DF, aonde cheguei, já à noite.
OOODepois de um banho reconfortante e algumas providências para o dia seguinte, preparava-me para dormir, por volta das 22h30, quando batidas na porta do quarto trouxeram-me, abruptamente, de volta à realidade profissional. Era o Sgt  Borges, profissional exemplar e antigo, na função de Adjunto do Oficial-de-dia avisando que havia estourado uma sublevação de militares de outras Forças e talvez o nosso quartel fosse um alvo.
OOOAprontei-me de imediato enquanto formulava algumas hipóteses. O fato é que, pelo cansaço e pelo envolvimento e emoção inerentes ao nascimento de um filho, não me aprofundara no  noticiário dos últimos dias e mal soubera  da cassação do mandato, pelo Judiciário, de um Sargento eleito deputado federal. Veio-me à mente, em primeiro lugar, a segurança dos integrantes do batalhão, dos quais cerca de 1.200 soldados “granadeiros”, naquele horário em merecido repouso e, também, das instalações, naquela época, um quadrilátero totalmente permeável a uma ação dos sublevados e apenas com uma sentinela em cada um dos seus vértices.
OOONão havia  tempo para consultar alguém e nem conhecia da extensão e da gravidade dos fatos e só depois de algumas horas  ficaria sabendo que apenas mais três Oficiais estavam no Quartel, um deles o Oficial-de-dia. Mas éramos Oficiais (e Sargentos que foram se incorporando às atividades) e não há Exércitos distintos e, assim, agimos como, por certo, agiriam, hoje, os Oficiais e Sargentos atuais, respeitando os valores da disciplina, da hierarquia e, sobretudo, da lealdade, os quais têm sido cultuados como orientadores da ação permanente da Força.
OOOSaindo do meu alojamento, decidi-me a levar três soldados e um Cabo (Veloso) para simplesmente dobrar os postos  existentes o que efetuei em poucos minutos. Retornando à minha Companhia (2ª Cia. de Fuzileiros) encontrei-me com o Cap. Francisco José Schimidlin de Castro e, após uma rápida troca de idéias, tomamos duas providências: - ele, como responsável pelo setor de transportes, acionou todas as viaturas e as reuniu no pátio interno do Quartel, aumentando a segurança do precioso material e, ao mesmo tempo, deixando-o em condições de pronta utilização quando necessário; enquanto - da minha parte, mandei “tocar alarme e preparar” (basicamente acordar, colocar o uniforme e se armar) a 2ª Cia. de Fuzileiros, verificando  os sargentos que estavam presentes para comandar os pelotões  e, em seguida, tomei a mesma providência quanto à 4ª Cia. de Fuzileiros. Saberíamos mais tarde que toda essa agitação  – viaturas e pessoal - foi determinante para que os rebelados que já se achavam no fundo do quartel relutassem em tentar conquistá-lo.
OOOInformado da presença do Maj. Hernani de Azevedo Henning, oficial do Estado-Maior do Batalhão, no Pavilhão de Comando, fui ao seu encontro, ocasião em que, com sua calma e eficiência habituais, me informou da presença muito provável de rebelados na área do fundo do Quartel. Rapidamente, lhe dei conta que reforçara os dois postos no fundo do quartel  e, agora em desabalada carreira,  retornei  aos dois locais onde, para minha tranqüilidade, os encontrei sãos e salvos e a postos como determinado, providenciando para que permanecessem mais próximos do aquartelamento. O  cabo Veloso a quem eu dera um a área para se instalar, decidira recuar um pouco mais, obedecendo a instrução militar recebida, de fugir a claridade da lua, o célebre “ver sem ser visto”. Em toda minha vida profissional poucas vezes uma instrução teve um efeito tão importante...
OOOComo combinara com o Maj. Henning, determinei que a 4ª Cia. se desdobrasse nos fundos (lateral oeste) do Quartel com ordens taxativas de prender e, se necessário, atirar em quem se aproximasse. Nesse desdobramento e em operações futuras destaco a atuação do Sgt Barros, daquela subunidade, pelo pronto atendimento às determinações e transmissão de confiança aos jovens soldados. O mesmo procedimento foi adotado em relação à 2ª Cia. que foi desdobrada na lateral Norte do batalhão, então um espesso cerrado e onde, muitos anos mais tarde, eu estaria  me instalando como E-3, no aquartelamento da 3ª Bda Inf e, antes de passar para a Reserva, seria Subchefe e  Chefe de importante seção do Gabinete do Ministro do Exército. Coincidências... mas valem ser relembradas, pois, durante todos esses anos, mudaram minhas atividades permaneceram porém – ativos ou latentes - os mesmos problemas que, com nuances diferentes, atormentam o  Brasil, até os dias atuais, mantendo-se  o Exército voltado sempre para suas missões constitucionais.
OOO
Enquanto diversos oficiais e sargentos chegavam ao BGP, no quartel da PE, o seu Cmt e alguns Oficiais resolveram, por desconhecerem a situação, entrar pelos fundos do quartel, quando foram presos pelos revoltosos e conduzidos à Base Aérea de Brasília, local controlado pelos revoltosos e cárcere dos oficiais.
OOODois tenentes da PE, entretanto, Haraldo de Oliveira (Turma de 1957) e  Eduardo de Oliveira  Fonseca (Turma de 1958), entraram normalmente no seu quartel e, horas mais tarde, conforme depoimento verbal feito a mim, organizaram um destacamento e se dirigiram para o DTUI (Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos) equivalente a uma  central telefônica do DF, situado na Asa Sul, quadras 400, até então em poder dos amotinados. De fato, durante a noite e parte da madrugada, os quadros sublevados da Marinha e da Aeronáutica, passaram a controlar não só esse órgão como também assumiram prédios militares na Esplanada dos Ministérios, além de se instalarem com farto armamento nos fundos  dos já citados quartéis do Exercito. Os dois tenentes reassumiram o DTUI, de forma vigorosa e até um pouco fora dos padrões habituais, chegando a perseguir alguns militares amotinados que debandaram em correria pelas quadras. Em situações excepcionais, impõe-se  iniciativa do Cmt e também medidas excepcionais.
OOO Na área dos quartéis, lenta e seguramente, alargou-se o cerco defensivo das duas companhias em torno do BGP objetivando garantir  a inviolabilidade do mesmo.
OOOO  Cmt do BGP , Cel. Raymundo Netto Corrêa, deslocou-se para a esplanada, assumindo, no prédio do Ministério do Exército, o Comando da 11ª Região Militar, tendo em vista que o seu comandante – Gen. Fico – encontrava-se fora da guarnição. Com ele seguiu, entre outros, o Ten. André Leite Pereira Filho (Turma de 1959)  com um efetivo de soldados granadeiros para reforçar a guarda daquele ministério. Quando esse pelotão preparava-se para formar o perímetro de segurança do Ministério, três ou quatro amotinados que controlavam o vizinho Ministério da Marinha  investiram, atirando contra o mesmo. Naturalmente, os soldados em seu inesperado “batismo de fogo” se protegeram, aguardando ordens, enquanto o Ten. André, tomou a posição deitado e, depois de concluir a montagem da metralhadora Madsen que estava próxima, passou a atirar contra os atacantes. Com o passar dos segundos, refeitos da surpresa, os soldados da guarda e outros do reforço recém-chegado também reforçaram o fogo, obrigando os atacantes a refluírem para o seu prédio, com algumas baixas.
OOO O Sub-Cmt do BGP, Cel. Inf Antonio Barbosa de Paula Serra, assumiu o comando operacional do BGP e já garantida a segurança física do aquartelamento, organizou a coluna motorizada constituída por caminhões militares e ônibus civis transportando o maior efetivo possível do BGP, tendo à frente, em posição para eventual tiro horizontal, os canhões da Bateria Independente de Artilharia, para a ação de limpeza final na Base Aérea e na Área Alfa (Marinha). Quando iniciamos  o deslocamento, cerca de 09h, no pátio do BPE, a tropa pára-quedista ali aquartelada, fazia treinamentos para “controle de tumultos” não havendo, entretanto seu emprego prático nas ações.
OOOA tropa dirigiu-se, na direção Sul, pelo EPIA (Eixo Principal de Indústria e Abastecimento), via que praticamente faz parte da ligação do Sul com o Norte e Nordeste do Brasil, fixando seu Cmt, como primeiro objetivo a liberação da Base Aérea. Para isso determinou-me que, com um pelotão, cumprisse uma proteção do flanco da tropa, na Rodovia 040/020, próximo ao cruzamento com a avenida que, dali, se destina a região do Aeroporto.
OOOEstabeleci as medidas necessárias, face ao controle dos passageiros dos veículos, e a uma possível ação por parte dos revoltosos, vindos do sul, pela mesma rodovia. Foram tomadas todas as medidas para tal, embora o efetivo fosse um tanto reduzido e a missão envolvesse atividades de controle policial e, simultaneamente, atividades de combate pois deveria ficar em condições de um embate com eventuais grupos de amotinados oriundos da área Alfa. Isso incluía, principalmente, o posicionamento das metralhadoras e a “amarração” (fixação dentro de certos limites) do seu tiro, evitando que um eventual tiro livre atingisse pessoas não envolvidas no conflito.
OOONa Base Aérea, foram libertados os oficiais presos, os quais, ainda conforme relatos verbais, “deveriam aderir ao movimento em 24 horas ou serem executados” justiça almejada pelos líderes esquerdistas como padrão para o Pais o que, de certa maneira, se repete até os dias atuais. Durante essa fase, o Cel. Serra, reavaliando a minha missão inicial e conhecedor de outros dados sobre o efetivo da Área Alfa (objetivo 2),  houve por bem, enviar para meu auxílio, sucessivamente, os pelotões comandados pelos Ten. Fernando Cardoso (Turma de 1959) e Ten. Augusto César Monteiro Teixeira Coimbra. (Turma de 1960). Com mais dois pelotões a meu comando pude, realmente, rearticular melhor o dispositivo, pois o eventual embate com tropas de amotinados vindas em sentido contrário seria uma hipótese bastante desconfortável para um pelotão apenas. A missão prosseguiu com os incidentes normais como a detenção temporária de duas pessoas – um civil e um militar -, mas sem maiores problemas, durando três horas até o retorno do grupamento do Cel. Serra.
OOOReiniciado o deslocamento, atingimos a pista de acesso á Área Alfa (Marinha), onde, pela madrugada, um modesto estafeta motorizado de uma empresa fora metralhado pela guarda dos amotinados. O reconhecimento efetuado indicou que os integrantes daquela corporação estavam em forma, desarmados, comandados por um Sub-Oficial, aguardando a chegada do comboio para se renderem. Feito o contato, aproximadamente 200 amotinados, no decorrer do final da tarde, foram enviados presos para o Ministério do Exercito onde permaneceram detidos para as conseqüentes averiguações legais.
OOOExecutamos o reconhecimento da  área do aquartelamento que deixou claro  o saque efetivado contra um depósito de armamento e a guarnecemos para o nosso pernoite. Finalmente, por volta das 20h30, consumimos a primeira refeição daquele dia que fora  memorável em todos os sentidos. Não deve ser esquecido que, nessa segunda parte do deslocamento, em clara demonstração de amor à sua Força, incorporaram-se ao nosso grupamento, em trajes civis, com suas armas pessoais e um carro  particular, quatro oficiais daquela base da Marinha, em estreita e útil cooperação com o desenvolvimento do nosso trabalho.
OOOEm menos de 24 horas, o Exército, basicamente representado pelo BGP dera uma brilhante demonstração de Disciplina, Eficiência e Lealdade, sob os exemplo de seus Cmt – Cel. Raymundo  e  Cel. Serra – e com a dedicação de vários oficiais e sargentos que, em conjunto e mesmo em ações isoladas, expuseram suas vidas. Foi particularmente o BGP, a única Unidade constituída a debelar o movimento sedicioso, com a participação de frações da Bateria Independente e da PE. Outras unidades e efetivos poderão ter contribuído , a posteriori, nas atividades de rescaldo das operações, mas a repressão foi totalmente conduzida pelo citado batalhão.
OOO
Outros oficiais, sargentos e praças do BGP tiveram suas participações efetivas e, com certeza, tão ou mais importantes, mas não temos conhecimento suficiente dos fatos para agregá-los a esse testemunho. Deve ser ressaltado, entretanto, que mesmo agindo isoladamente, a atitude e a atividade desses profissionais convergiam para um ponto único final em face da existência, na formação dos profissionais da guerra do princípio fundamental da “Unidade de Doutrina”. No decorrer das operações, como é cabalmente demonstrado no texto, as condições permitiram que aflorasse outro princípio básico que é o da “Unidade de Comando”, que surge na atuação do Cel Raymundo, Cmt  do BGP, ao assumir o Comando Militar do Planalto e, do Cel Serra, Sub-Cmt do BGP, ao assumir o Comando Operacional das ações.
OOO Encerramos esta síntese, para compartilhar com os leitores algumas observações referentes aos fatos citados e muito pertinentes, considerando-se a atual conjuntura brasileira.
OOOA primeira delas é de que o BGP deu uma vigorosa demonstração do seu preparo e, como Unidade de Infantaria, da real liderança de seus oficiais sobre suas frações, acompanhados com dedicação profissional pela maioria maciça de seus sargentos. Daí julgarmos mais justo titular o infeliz evento gerado pela esquerda de “Levante  de Brasília” e não de outro nome que, mesmo genericamente, pudesse ligá-lo à classe dos sargentos o que seria uma afronta àqueles  profissionais que, particularmente no âmbito do BGP, demonstraram a excelência de seus papéis, exercidos na plenitude do amor à Instituição.
OOOQuanto aos soldados, em sua maioria do interior de São Paulo, imbuídos dos sentimentos de brasilidade e de respeito às autoridades, participaram, como militares e como verdadeiros cidadãos, dessa página brilhante da Historia Militar  confirmando assim o conhecido dito do Gen. Osório de que “é fácil a missão de comandar homens livres; basta indicar-lhes o caminho do dever”.
OOOAinda hoje, temos o prazer de vez por outra, contatarmos com alguns deles e, nessas oportunidades, sempre aflora o orgulho natural de terem cumprido a missão que se impunha. Jovens ainda, com 19 ou 20 anos, já haviam atendido ao primeiro chamado legal  da Pátria quando se incorporaram a um Quartel, no ainda desconhecido Centro-Oeste, longe do conforto de suas residências e da companhia de seus familiares e, no evento narrado, cumpriram, na prática, com o único juramento profissional que impõe como limite máximo  o sacrifício da própria vida... ao serviço da Pátria  e à defesa de sua  honra, integridade e Instituições! Traçaram eles aos seus pósteros a conduta reta de que o atendimento à hierarquia, à disciplina e à lealdade são perfeitamente compatíveis com a camaradagem entre todos, independente de postos e graduações.
OOOResta ainda uma dúvida: qual a justificativa para que o Exército e, em especial, o BGP, não comemore uma data tão cara e plena de ensinamentos para todos os militares? Não se constituíram esses fatos em exemplo concreto e louvável de Lealdade, Hierarquia,  Disciplina e Eficiência ?
Não é do conjunto de fatos como esse que se constitui a História – de uma Unidade e, em conseqüência, de todo o Exército – e se fundamenta a Tradição, valor inquestionável para uma Instituição e para uma Sociedade que desejamos forte, ampla e segura?
OOOReconheçamos  que, á época, Brasília era ainda algo remoto tanto na mídia quanto  na mente do brasileiro e até mesmo na de muitos colegas. Mas se analisarmos, com a clareza que o tempo aprimora, veremos que o Exército e, em especial o Batalhão da Guarda Presidencial, deixou claro, como numa espécie de avant-premiére, seis meses antes do Movimento de 64, qual a posição a ser tomada, em relação a tentativas  de qualquer ideologia totalitária que tentasse se impor no Brasil. E como “não há Exércitos distintos” eao longo da História, temos sido sempre o mesmo Exército de Caxias, referência em termos de ética e de moral, alinhado com os legítimos anseios da sociedade brasileira”, em que pesem as dificuldades eventuais, temos a tranqüilidade necessária para acompanhar e, se necessário, até mesmo  participar do desenrolar da História, dentro do quadro da contínua cooperação do nosso Exército que, após 1985, sob a alegação de ser o “Grande Mudo”, vinha correndo o risco de transformar-se no “Pequeno Omisso”.

(*) O autor é Cel. Inf. da Reserva - Turma de 1958                 Brasília, 04.Set.2007
E-mail : santosary@uol.com.br     

(Reprodução autorizada desde que citada a fonte)

   
           
 
           
   
A REVOLTA DOS SARGENTOS
   
     
Vivida por Mário Pascual Júnior
   
           
     

Caro amigo Hélio, é com muita satisfação e emoção profunda que desde já lhe dou permissão para utilizar minha narrativa sobre o episódio da Revolta dos Sargentos em 12/09/1963. Agradeço o seu contato e ficarei atento ao site para sempre saber das novidades. Um grande abraço. Mario PASCUAL Junior - Soldado 1270 - 4a. Cia. de Fuzileiros - 1963.


   
   

Era Setembro de 1963, eu estava dormindo com uma passagem de ônibus Brasilia/Ribeirão Preto-SP, pois conseguia junto ao comando do BGP uma folga de 8 dias para visitar meus familiares, quando o Tenente Altidório me chamou e ordenou que descesse imediatamente do alojamento da 4a. Cia. e apanhasse meu armamento já que eu era o atirador do 3o. pelotão.
Imediatamente cumprí as ordens apanhando meu fuzil-metralhadora e me posicionando em uma trincheira ao lado do quartel. Até aquele momento não sabia ainda o que estava acontecendo, apenas com ordens de atirar caso houvesse invasão. Confesso que com apenas 18 anos de idade fiquei muito tenso, porém, sem medo de defender meu posto.
Ao amanhecer ouvi ruído dos tanques blindados do Regimento de Cavalaria Mecanizada se deslocando e ruídos de tiros de metralhadora ao longe, vindos do centro de Brasília. Recebí novo comando dos oficiais para que deslocasse o pelotão para embarque imediato, o que foi feito.
Ao chegarmos à Esplanada dos Ministérios constatamos a gravidade do momento: havia um sargento da Marinha morto por um oficial do BGP que fez um contrataque para defender suas tropas.
A tensão aumenta e somos deslocados para o Aeroporto de Brasília onde ficamos em trincheira ao lado da rodovia de acesso, com ordens de revidar qualquer ataque.
Após algumas horas, fomos deslocados em direção ao quartel da Marinha que ficava um pouco distante da Capital. No caminho deparamos com um veiculo da Cia. Telefonica metralhado com o motorista morto com a cabeça caída ao volante, momento inesquecível e a tensão ainda maior.
Ao chegar ao quartel da Marinha, apoiados pelos tanques e pela artilharia de solo, tomamos o quartel e conseguimos fazer nossa primeira refeição do dia às 19:00 horas.
Alí havia a notícia: aconteceu a REVOLTA DOS SARGENTOS liderados pelo sargento Garcia que na época era Deputado Federal.
Após 7 dias de tensão fui autorizado a viajar para minha cidade e rever minha família.
Finalmente quero dizer: SÃO PAULO ESTAVA LÁ.
Com muito orgulho e muita saudade, guardo comigo as recordações de meu tempo de quartel e acho que todo brasileiro deveria passar pelas Forças Armadas, pois a vida é mais valorizada após essa experiência agradável.

   
           
 
           
   
A REVOLTA DOS SARGENTOS
   
     
Vivida por Pedro Kowaliauskas

   
   
   
 


Três meses incompletos da incorporação ao Batalhão da Guarda Presidencial. Seguia o mês de setembro do ano de mil novecentos e sessenta e três. Já era dia doze.
No alojamento da Companhia de Petrechos Pesados o manto da noite agasalhava os soldados que, não estando em serviço, repousavam aguardando o toque de alvorada.
De repente as luzes todas se acenderam. Era  por volta de três horas da madrugada. Nem notei que havia soado um alarme. Segundo comentários posteriores, haviam tentado invadir o Batalhão.
O 1ºTen.Monteiro ordenava que a Companhia estivesse em forma, com uniforme de instrução, na pérgula. Não demorou muito e a ordem era cumprida.
A Cia.em forma, o oficial foi escolhendo alguns soldados para saírem de forma. Eu fui um deles.
Havia um silêncio sepulcral.
O “choque” estava já postado ali perto. Eu imaginei que se tratava de um treinamento. Para nós que fomos escolhidos, foram distribuídos cinco cartuchos de munição para as armas que já estavam conosco.
Pronta a ordem para embarcar, rumamos ao centro de Brasília. Desembarcamos no Ministério da Aeronáutica.
Imaginei que fosse um treinamento em conjunto das forças armadas.
Kortz e eu fomos escolhidos para o posto defronte ao edifício do Ministério. O tenente veio e disse:
-Vocês têm cinco cartuchos de munição. Se no prédio ao lado (Ministério da Marinha) houver algum movimento suspeito não atirem primeiro, mas, quando vocês atirarem não errem. (palavras escritas de memória, podem não condizer “ipsis literis”)
Ali ficamos por um espaço de aproximadamente uma hora para menos, quando fomos substituídos pelos  sd.Silva e sd.Vellenick, se bem me lembro.
Foi nos dada autorização para irmos ao sub-solo do edifício, onde ficava o refeitório. Ali nos serviram aveia, em nossa caneca de campanha.
De volta, subindo as escadas, ouviam-se alguns estampidos. Kortz disse:
-É tiro!
Eu achava que era o estalo das persianas, que havia por lá.
Ao chegarmos ao salão de vidro, que dava para a rua, lá estavam, na metralhadora ponto 30 o soldado-metralhador veterano 1103 (não sei o nome) que disparava rajadas. E o ten.Monteiro disparava os fuzis  que eram substituídos em sua mão. Kortz gritou para eu dar meu fuzil ao tenente porque ele estava mandando. Logo após voltou a arma às minhas mãos, descarregada.
Alguns instantes após, tentava o jovem oficial ligar para o Batalhão, mas não conseguia linha. Não sei de onde apareceu também um telefone de manivela.
Disparos ainda continuavam. Agora mais interruptos.
Algum tempo passou.
Chegaram os tanques e apontaram seus canhões para o edifício insurgente.
Viam-se os braços erguidos dentro das gandolas cáqui dos fuzileiros navais saindo do prédio.
Havia sido abortada essa tentativa de fratricídio. Mas as inseminações continuaram pelos tempos vindouros.
E clareava o dia.
Novamente fomos reunidos, já com reforços, desta vez presente também o 3ºsgt.Monteiro.
A revista Manchete fazia documentação fotográfica do evento. Os soldados do BGP deitados no chão da esplanada, formavam um mar  verde-oliva e os tanques de guerra pareciam tigres a mostrar suas garras.
Agora eu já sabia que não era um treinamento.
Outra vez o choque. E outra vez não sabíamos para onde estávamos indo.
Paramos defronte à guarnição da Aeronáutica, até que veio a ordem para adentrarmos ao quartel.
-Desembarcar!
Agora era o sargento Monteiro no comando. Estabeleceu postos de guarda, iniciando-se o primeiro turno às nove da manhã, com período de uma hora. Fez a escala, que hoje ainda tenho em minhas mãos.
O 10ºBC de Goiânia veio suprir a guarda do BGP. Ficamos em torno de três dias na Aeronáutica.
Saímos do quartel com cinco cartuchos de munição cada, mas voltamos com o cinturão de guarnição completamente cheio, tantas foram as balas encontradas escondidas dentre os arbustos, na Aeronáutica.
Estes são os soldados que participaram do primeiro evento do dia 12 de setembro de 1963, a Revolta dos Sargentos:

791-KORTZ
820-TÉRCIO
797-MÍLTON
793-ALONSO
816-GALHARDI
799-ODARA
775-JONAS
781-ALMEIDA
815-PRATES
812-ERTL
782-CREMONEZI
794-CARDOSO
813-KOWALIAUSKAS
823-WALTER
779-BORGES
746-ARNALDO
760-VELLENICH
786-SILVA
1103- soldado veterano (metralhador)
780-KNOLL

(Pedro KOWALIAUSKAS - CPP - 1963/1964)

 

   
 
   

São Paulo estava lá

Artigo extraído de "Lendas Urbanas - A cidade e seus personagens"

Uma curiosidade que Pedro Kowaliauskas (BGP 63/64 - CPP - cb 813) enviou a um programa da rádio Eldorado de São Paulo e que está nas páginas da internet.
(27/02/2004 – Pedro Kowaliauskas)

São Paulo tinha quatrocentos e nove anos. O Parque Dom Pedro II era arborizado. Em suas confrontações havia o quartel da Sétima Companhia de Guardas do Exército Brasileiro. Era julho de 1963.
São Paulo fornecia o contingente para o Batalhão da Guarda Presidencial, que fazia três anos estava sediado em Brasília e a quem cabia toda a Guarda da Presidência republicana, que hoje é dividida com a Cavalaria.
Mil quilômetros e vinte e quatro horas de ônibus aguardavam esses jovens paulistas, paulistanos e migrantes, oriundos em sua maioria das camadas humildes da população, para integrarem as forças de defesa da Pátria. Eu estava lá.
No dia 12 de setembro de 1963 explodia a revolta dos sargentos. Um pelotão foi formado às pressas, na Companhia de Petrechos Pesados, deslocando-se ao Ministério da Aeronáutica. Houve confronto balístico. A imprensa noticiou. Eu estava lá.
São Paulo já havia comemorado 410 anos de existência. No dia 31 de março de 1964 nasciam os anos de chumbo.
Por força do "bilaquiano" dever os soldados paulistas compunham também essa faceta de nossa história.
Em Brasília, São Paulo estava lá.

Pedro Kowaliauskas - e-mail: pekowal@ig.com.br