Estórias e "causos" de caserna
 
   
 

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Gallo corneteiro e o presidente pelado
 
   
por Norival Miranda Gallo
 
     
   
Corria o ano da graça de 1966 e eu e meu amigo Da Silva, ambos bêbados como gambás (até hoje não sei a origem deste tema ), zuávamos pela avenida W3. Caramba, como malhávamos umas manguaças... De repente passa por nós um sargento da Marinha e nos diz :
—  Soldados, não se enquadram para um sargento?
A resposta foi curta e grossa:
—  Não nos enquadramos para viado.
Não demorou nem ao menos um minuto e fomos grampeados pela PE (nessa época apenas de catarinenses, que dizíamos serem todos viados).  Lá fomos nós para o quartel dos ditos cujos. No xilindró (eu não estava acostumado a isso não, pois peguei apenas 74 dias) deu uma vontade doida de dar um mijão e, sem ao menos saber direito onde estávamos, acabei fazendo o desperdício das manguaças na pia. O barraco ferveu, sorte que tinha uns cadeieiros da terceirona (como nós), da quarta e da CCS que nos ajudaram a segurar o rojão, caso contrário iríamos dar porradas pra todos os lados.
Isso não vem ao caso. Seis horas da manhã do dia seguinte ( lembro bem ser quarta feira de cinzas ), chega o oficial de dia e pergunta:
 — Quem é o Gallo corneteiro?
Pensei com meus botões “é agora que a coisa vai pegar”. Levantei de um canto - claro que dormia no canto e com a bunda virada para a parede - me enquadrei para o tenente e disse:
— Sou eu.
— Se arrume que tem um jipe te esperando.
Palavra que fiquei assustado. Será que iriam me levar para a corte marcial?
— Você vai ser o corneteiro do Alvorada.
Porreta da filombeta, que alívio foram aquelas palavras. E lá foi o Gallão de jipe (bota pomposo nisso) para o Alvorada. Comida de primeira, como corneteiro, tocava as oito e as dezoito para a nossa mãe Bandeira e para o Castelinho (vejam a minha


intimidade com o homem) Branco quando ele estava em Brasília. Mamata maior não poderia haver e foram quase que exatos dois meses.
Arrumei uma linha e um anzol - e se disserem que é história de pescador o pau vai cantar – e ia naquele laguinho (não o lago Paranoá), naquele laguinho atrás do palácio e ficava tirando umas tilápias. Não me lembro quem foi o cabo que descobriu e quis me dedar e aí acabou-se a brincadeira.
Falei, falei e até agora não contei o causo a que me propus. Lá vai.
Vez por outra, as netas do nosso amigo Castelinho, levava as colegas para nadar e tomar sol na piscina que tem atrás do posto de guarda...
Arfff! era a festa do corpo da guarda, lugares disputados a tapa para olhar as gatinhas e descascar a banana. Aquilo é que era orgia.
De certa feita, as luzes se acenderam por volta das 20 horas, foi aquela correria a nossos postos de serviço (de descascar as bananas) e para a nossa total surpresa, nadando na dita cuja piscina apenas e tão somente uma pessoa (que neta que nada). Era o nosso chegado Castelinho e, quem queria ver aquele legúmeno paquidérmico ? Não demorou muito o Buzollo deu uns berros:
— Corram aqui, rápido!
Pensamos que o hominho estava morrendo afogado e subimos logo aos nossos postos de guarda (digo, das bananas) e para a nossa total surpresa, acabamos vendo o ilustre homem do malfadado 31 de março PELADO!!! É verdade, vos digo é pura verdade, a gozação foi total para todos que estavam em seus postos de guarda (digo, bananas). E as bananas nesse dia ficaram sem serem descascadas.
Como diz o nosso amigo Xerém “ abraços begepeanos a todos “

Sd 519 – Gallo - 3ª Cia – BRASA

 
             
 
 
     
   
"Petit pourri" de recordações (ao Xerém)
 
   
Fernando Antonio Rosa (Corneteiro Distraído)
 
     
    Xerém... eu tenho uma memória privilegiada: Você recorda das corridas que fazíamos passando por trás da torre... estava iniciando a construção; do campo de futebol de terra atrás do rancho; do Dib quando chegou magrinho e quando deu baixa forte como um touro... ( o boiadeiro tb). Tinha nêgo bom na pista de aplicação, o Ferreira era um deles; quando o Risco pegou cachumba... a briga do Tonhão com o Déca  da CCS na pensão da Espanhola? O dia que prenderam o Paina... Quando esquecemos o Manilha na ponte do rio São Marcos em Paracatú? Quando o "Cobre Mira" atirou com o fuzil sem tirar a dita cuja... O Trebesque, como comia cebola!!! Quando o Alemão enfiou a ponta da baioneta na bunda do Tutú....Tenho muito mais lembranças... o Sacomane, intelectual... Abraços. ROSA.
 
             
 
 
     
   
Acuidade visual (pré-caserna)
 
   
por Pedro Kowaliauskas
 
     
   

Muitos, ou alguns dos que estavam prestes a servir as forças armadas tinham medo de serem escolhidos. Tanto que chegavam a tremer ou suar frio por ocasião da seleção.
Lá estávamos nós para os exames de aptidão física antecipando a incorporação ao Exércio Brasileiro. Era a vez de fazer o teste de acuidade visual.
Foi quando chegou a vez de um dos que estavam sendo avaliados. O oficial médico mostrou o quadro na parede com diversas letras, em vários tamanhos, mandou que ele cobrisse um dos olhos com a mão e lesse a letra menor. Ele apenas meneou a cabeça, em sinal negativo, sem dizer uma palavra.
O médico mandou que lesse a letra maior. Novamente balançou a cabeça. Assim fez até a maior das letras. Sempre a negativa silenciosa.
Então o médico mandou que chegasse bem perto do quadro e apontou a maior das letras.
Novamente o "não" representado pelo balanço da cabeça.
Aí o médico perguntou:
— Você sabe ler?
A cabeça balançou de um lado para o outro...
A risada foi geral!

 
 
 
     
   
Nomes e apelidos II
 
   
por Edson Andrade
 
     
   

Muito interessante a lembrança do amigo Xerem a respeito de nomes e apelidos. Tinhamos na 4.ª Cia o PATETA (Castalgine), o GANSOLINO (Luiz Carlos Leite Carneiro), o XIRÃO, o RISCO (Clovis de Araraquara), o LAGARTIXA (Benedito Silva), o PAULO BUNDA (saudoso de Rio Preto), o BANDOLA (grande amigo de Rio Preto) o PATO ROCO e o CAVAQUINHO (ambos de Rio Preto, já falecidos) o JIPÃO (Ataíde Garcia, de Rio Preto, já falecido), o TUTU (Teobaldo, Araraquara), o GREGO (Papadopoli, o corneteiro). Não podemos nos esquecer do KID MORENGUEIRA (ten Cardoso). O Moura se lembrou de mais um: COBRE MIRA. Serão necessárias algumas seções de consultas para se lembrar de mais alguns apelidos, que agora me fogem. Um forte abraço do amigo de sembre. EDSON DE ANDRADE - Sd. 1847.

 
 
 
     
   
Identificação dos personagens do causo
 
   
"Sexta-feira" e as prostituas
 
   
por Neoclair Ribas (Xerém)
 
     
   

00FERNANDO ANTONIO ROSA, 4ª CIA, da Cidade de Matão, Corneteiro (e dos bons), que eu tasquei-lhe o codinome de CORNETEIRO DISTRAÍDO, pois ousou tocar RANCHO para o Presidente CASTELO BRANCO, é mole?
00BORRACHUDO, é o ROBERTO FERREIRA DA SILVA, da cidade de Barretos, e era motorista do Pelotão de Transportes, sob o Comando do Ten (hoje Cel) CARLOS MONTEIRO DE CARVALHO. Durante anos, depois da baixa foi cobrador e motorista da Auto Viação São Manoel, que fazia a linha BARRETOS/S.PAULO, passando por Jaboticabal, Matão e Araraquara.
00E o SEXTA-FEIRA, que era talvez o menor soldado do BGP (menor que o Geraldinho Ribeiro), era corneteiro, também. Tentou (ou tentaram) ir para a CCS, mas numa treta com uns caras (Deca e Sabiá), levou uma "pifa" e pediu para voltar para a 4ª Cia. Vou tentar descobrir seu nome. Era uma figura exótica, por causa dos causos que ele contava, impossíveis de se acreditar. Então, alguns não tinham "fair play" e o ignoravam. Mas tirando isso, era gente fina.(rsrsrsrsrsr)

 
 
     
   
"Sexta-feira" e as prostitutas
 
   
por Antonio Fernando Rosa (corneteiro distraído)
 
     
   
00Quando fomos para Goiânia retirar do poder o governador de Goiás, o interventor foi o coronel Meira Mattos que era de São Carlos.
00Fui como corneteiro e toda manhã (todos devem se lembrar) faziamos a parada e eu tocava o toque do coronel (atenção batalhão, coronel chegou... alguém se lembra disso?!), em seguida hasteava-se a bandeira (isso era feito no Palácio das Esmeraldas onde era, então, a residencia do interventor).
00Certa noite estava eu e o Fernando, de Santa Rosa do Viterbo, conversando, pois erámos da seção de comando do então sub-tenente Borges (saudoso), quando o sargento Sampaio nos ordenou que fôssemos com ele verificar uma ocorrência na zona P-16, em Aparecidinha de Goiânia, pois havia recebido uma denúncia de desordem no local.
00Lá fomos nós com nossos apetrechos: fuzil, capacete, etc., farda de instrução. O motorista era o Borrachudo, da CCS. Na frente foi o sargento ao lado do motorista e atrás, eu e o Fernando sacolejando no velho jeep. Quando chegamos em


Aparecidinha de Minas, na referida casa, por volta de uma hora da manhã, tudo fechado... nenhum sinal de qualquer tipo de ocorrência. As prostitutas estavam todas escondidas, com medo da gente. O sargento Sampaio, que eu não sabia ser tão bravo, pensou por um momento e em seguida mandou meter o pé na porta para abrir.
00Quando a porta cedeu e entramos (era uma casa até bonita, chique), o Sampaio logo começou a “dar uma prensa” em uma das mulheres para que contasse o ocorrido e mandou que revistássemos os quartos em busca de algum subversivo. De repente o Fernando gritou:
00— Sargento, aqui tem gente!
00Fomos pro quarto, o sagento empunhando a pistola. Eis que nos deparamos com o sujeito em baixo da cama: era o "Sexta-feira"! Ele havia batido em uma das prostitutas porque ela não quis ir pra cama com ele, de graça, daí a confusão!
00Bêbado, com os olhos vermelhos (pois ele gostava de “dar um tapa” num baseado de vez em quando), voltou preso pro quartel, sem ter transado com ninguém.

 
             
 
     
   
O sargento enforcado do Posto 5
 
   
por José Artur Sampaio (1ª Cia - 1964)
 
     
   

000Não se sabe se, lenda ou não, mas, na história de quartel conta-se que, certa feita, logo no início das suas instalações , um certo sargento que fora traído pela sua noiva, inconformado com o fato, pusera fim à sua existência, enforcando-se próximo a um posto de sentinela, atrás do quartel, numa tortuosa árvore de cerrado ali existente. Desde então, o sargento ali fora visto muitas vezes, em profunda lamentação, caminhando de um lado para outro. 
000O tal posto, em local ermo, escuro e nos fundos do quartel, à noite representava bem o ambiente lúgubre para  uma horrível cena de medo. Ninguém gostava de “tirar guarda” ali, mas, uma vez escalado, não havia como contestar. Assim, no início de nossa vida de caserna, ainda recrutas, os antigos soldados se aproveitavam disso, para o exercício de suas intermináveis zombarias, e o “posto 5” do sargento enforcado era ótimo tema.
000Soubéramos que, algumas vezes, a sentinela daquele posto, já amedrontada pelas histórias, ao ouvir sufocadas vozes clamando por socorro (obviamente, de praça-velho!), empreendeu aterrorizada fuga, esquecendo até sua metralhadora ali no posto abandonado...

 
             
 
     
   
As "bacias" do Congresso
 
   
por José Artur Sampaio (1ª Cia - 1964)
 
     
   

00Ao serem iniciados os plantões e guardas dos Palácios, ainda “recos”, uma certa guarda destacada  ao Congresso, fora orientada pelos “praças-velhos”, para, lá chegando, “desvirar” as grandes “bacias” (arquitetura da Câmara e do Senado), a cada troca de guardas. E o pior é que conseguiram incutir na cabeça dos “recos” tamanho estapafúrdio, orientando-os a não fazerem perguntas aos superiores da guarda, pois isso já era obrigação diária  e o sargento e o tenente não gostavam de repetir ordens. Evidente que, lá chegando, sentiram a impossibilidade do ato, embora só o percebessem já bem próximos do imenso bloco de alvenaria de Niemeyer.

 
             
 
     
   
"Porrada" certeira
 
   
por João Guilherme
 
     
   

000Eu era motorista do almoxarifado e me levantava as 5h30, meia hora antes da alvorada, para ir à granja do Torto buscar o leite para levar na casa dos oficiais que ficava no setor militar.
000Uma vez, quando tocava o silêncio, às 22h00, eu já estava no alojamento para dormir. Quando as luzes se apagaram, chegou o Edson Arantes MATAR, e foi me aporrinhar dizendo que já estava na hora de levantar; neste momento eu tentava acertar-lhe uma porrada, mas ele ja estava esperando, e sempre se safava. Nesse meio tempo, chegava da rua o Seixas e o Ferracioli, éra mais ou menos 23h30. Eles foram na sala dos armários, pegaram a caneca, leite em pó, esquentaram com a resistência, mas não tinha açúcar. Lembrando que eu tinha, Ferracioli foi até a minha cama (eu dormia na parte de cima do beliche) e me chamou:
000— João! Eu, pensando que éra o Edson Matar novamente, sem pestanejar dei-lhe uma porrada certeira, que o coitado despencou no chão. Bem, dai por diante, meu amigo, quando entendi o que tinha feito, desci do beliche,  para explicar o que tinha acontecido, enquanto o vagabundo do Matar morria de rir em sua cama. Depois de conseguir explicar para o Ferracioli o que tinha acontecido, fomos lá  no banheiro, pegamos um balde de água, voltamos para o alojamento e jogamos em cima do Matar.

 
             
 
     
   
Quem "foi" Neoclair Aparecido Ribas?
 
   
por José Artur Sampaio
 
     
   

000Se imaginarmos tratar-se de uma daquelas figuras legendárias como “Os Três Mosqueteiros” ou “Robin Hood”, efetivamente erramos... No entanto, sob a alcunha de “Xerém”, aí sim, milhares de amigos darão o seu testemunho, que  tal figura não só "foi", como ainda "É"  o arquiteto das boas amizades.
000Serviu conosco no BGP em 1964, e desde então representa importante peça  na continuidade histórica do Batalhão da Saudade.
000Neoclair Aparecido Ribas, o Xerém, é casado com a Sra. Leonisa Pereira Ribas; têm três filhos e seis netos e residem em Araraquara .
000Neoclair, de batismo, nem mais o padre daquela pia batismal o sabe, pois, aos dezoito anos, recebe a “crisma” definitiva de “Xerém”, num “campinho” de futebol, após desastrosa jogada, como ele próprio relata.
000Naquela oportunidade fazíamos um pré-embarque para o BGP em Brasília. Estávamos no Quartel do 17º Regimento de Cavalaria de Pirassununga aguardando a partida  para nossa caserna definitiva .
000Daqueles tempos, o que me aflora à lembrança com destaque especial é a figura do Neoclair: não era o mais expressivo, nem  o mais forte, nem o mais alto; confundia-se facilmente com os demais, até pela sua simplicidade de pessoa pobre e humilde. Mas, tinha um “algo mais”, um carisma indefinível, uma “aura”especial, talvez... E uma imensa facilidade de aproximar-se das pessoas, doar-lhes instantâneas amizades e jamais esquecer seus nomes (poucos sabem seu verdadeiro nome, porém ele sabe o nome de todos). O Xerém é uma enciclopédia de fatos e de nomes, a quem recorro frequentemente, para “atualizar meus arquivos”.
000No primeiro dia de caserna, os conscritos são selecionados às diversas funções ou atividades – uns são indicados às oficinas, às viaturas, outros à cozinha, outros, ainda, aos setores burocráticos ou às companhias de fuzileiros, para prestarem


guardas, etc.
000
O Neoclair, como citamos, figura simples, bastante humilde, é, então, selecionado para funções burocráticas, junto ao Comando do Batalhão, ou seja, uma função privilegiada. Na verdade, função de responsabilidade, de confiança, de bastante trabalho, mas, livre da escala de guardas e outros treinamentos exaustivos. Mais uma vez, há que destacar o “algo mais” do Xerém, que o fez ser visto e selecionado para uma atividade tão especial .
000Ali servindo, no entanto,  e próximo dos comandantes e oficiais, o Xerém, inúmeras vezes,  prestava-se como intermediário, advogando causas e pedidos entre a tropa e o Comando.  Isto o tornava ainda mais conhecido, facilitando sua missão de “fazedor de amigos”.
000Ontem no BGP, hoje no BS, a mesma figura do amigo parece não ter notado o peso dos sessenta e tantos anos na esteira do tempo. Não fosse o traiçoeiro agrisalhar de seus cabelos, haveríamos de dizer que o Xerém continua o mesmo Neoclair ...
000Aproxima-se a data de comemoração do aniversário do BGP (20 de julho) e lá vem o Xerém com sua pasta, suas anotações, seus álbuns de fotos. É ele que reúne, que anota, que prepara, que avisa, que orienta tudo sobre as viagens. É ele que nas viagens serve-nos como “comissário de bordo”; nos desembarques e nos passeios é o vigilante técnico de turismo; também é o piadista, o informante, o repórter, o fotógrafo, o mediador (até hoje) entre o “comando e a tropa” .  
000Obrigado, Xerém, você personifica a verdadeira Fraternidade, importante elo entre  todos que compõem nosso Batalhão da Saudade.
000São Carlos, 10/03/2009
000Zé Artur, 1ª.Cia Fzo.2038/ 1964

000Obs;- Caro amigo, apesar de sua  sincera modéstia, gostaria que enviasse o texto acima , aos “causos da caserna”, afinal, o texto é meu, mas o mérito é seu..
 
             
 
     
   
Um "causo" da caserna no "tempo das cavernas"
 
   
ou: Ele era um anjo?
 
   
por Pedro Kowaliauskas
 
     
   

000Tanto tempo faz que parece até haver sido o tempo dos homens das cavernas. Povoam nossa mente, lá naquele cantinho das lembranças, os sons dos tiros na Explanada dos Ministérios e no “stand” de treinamento... a notícia do soldado encontrado morto na piscina do Torto... as expulsões...
000Nisso tudo aparece a imagem de PAULO CAMARGO. Um homem baixinho (como eu) comandando uma Companhia em um Batalhão de Gigantes. Magro, pele morena. Tinha um tique nervoso que se refletia no seu ombro. De pouca fala. Parecia austero, e acho que até era, mas uma austeridade que andava de mãos dadas com a bondade. Era, talvez, um caçador de diamantes que existiam dentro das pessoas.
Um dia todos nós fomos reunidos no “rancho” e nos foram distribuídas “provas”. Era a seleção para o Curso de Formação de Cabos. Aquele, que, em ordem unida gritava alto: CÊ! ÉFE! CÊ! CFC! CFC! CFC!!!
000FIRMINO BORBA FRANCO, soldado 762, da  Companhia de Petrechos Pesados, a mesma do Capitão Paulo Camargo, fora o PRIMEIRO classificado entre todos os da nossa incorporação. Era o diamante, daqueles cujo brilho se destacava. Baixinho também, mas o mais alto das cabeças que ali existiam. Cabeças inteligentes costumam ser rebeldes, pois não concordam com comezinhas coisas.
000A
CPP possuía alunos em excesso para o “curso de  cabos” e alguns precisavam ser remanejados a outras Cias.
000A Terceira Companhia de Fuzileiros  possuía


fama de ser a mais brilhante do Batalhão e até mesmo alguns a chamavam de vedete das companhias ou, fazendo um trocadilho, companhia de vedetes... Foi pra lá que o FRANCO foi designado. Não prestou! Logo se indispôs com um oficial, segundo disseram, e foi punido. O superior sempre está certo, não importa quão gênio possa ser o soldado. Ordem não é pra ser discutida. É pra ser cumprida! Não demorou pra que o agora ex-aluno do CFC, estivesse no comportamento “mau” e comentava-se que aguardava  ser expulso, visto que estava recolhido ao xadrez. Pálido e magro...
Foi aí que, um dia,  se viu a silhueta do capitão Camargo sair da CPP e mergulhar no sol quente do pátio dirigindo-se ao Comando do Batalhão. Carregava um ar sério em seu semblante. Seus passos pareciam comandar e conduzir uma companhia de seres vindos do Olimpo, que o seguiam invisíveis nessa missão. Ia falar com o Coronel sobre a situação do Franco, segundo comentaram... (a gente nunca fica sabendo direito do que acontece nos escalões...)
000Não demorou muitos dias e novamente estava o Franco de volta à 3ªCia.
000Os dias corriam e já chegava a baixa. Era tempo de devolver as armas. Incrível, mas parece que os céus às vezes pregam algumas peças: Franco foi limpar o seu FO e a vareta engasgou ficando presa dentro do cano da arma. Sua baixa foi adiada... Eu não soube mais nada daquela cabeça de gênio.
000E  do Capitão Camargo ainda guardo uma velha foto à frente da CPP e a dúvida se ele era um aprendiz de anjo...
 
             
   
   
             
 
     
   
Cacete elétrico
 
   
por João Guilherme
 
     
   

000Aqui vai um causo verídico do BGP, acontecido com o saudoso Elio Machado e o sargento Belini.

000O Élio éra mecanico do Pelotão de Transporte da CCS. Um dia ele estava indo em direção à 4ª Cia, quando passou em frente ao quarto do Sargento Belini. Este chamou o Élio da maneira como chamava todos os soldados: — "MACHADO, inseto! Mosquito do cocô do mosquito do cocô do cavalo do bandido! Venha aqui, pegue este livrinho do Belini!" Era um livrinho com uma mulher nua na capa, e quando a pessoa abria o livro tomava um choque. O Élio pegou o livro, abriu, sentiu o choque mas ficou firme sem reação nenhum. O Sargento viu aquilo e falou: — "Não deu choque não, inseto?" — "Não sargento, não senti nada." Ao devolver o livro, o sargento abriu-o e o jogou para cima, sentindo o choque. O Élio muito espirituoso, virou para o sargento Belini e disse: — "Sargento, o senhor ainda não viu nada... venha aqui comigo." Os dois se dirigiram para o pelotão de transporte e, la chegando, o Élio deu partida numa viatura (um Jeep Willys), arrancou uma vela do mesmo, segurou o cabo com uma das mãos, e com a outra  dentro do bolso começou a alisar o membro até ficar duro, tirou o bicho para fora, chegou com o mesmo a alguns centimetros do paralama do Jeep, quando começou a sair chispas, o Belini vendo aquilo, saiu correndo e se deparou com o tenente Monte Gomes que estava ali por perto. Este perguntou: —"O que houve, Belini?" — "Chefe, o Machado é louco, ele solta fogo pelo cacete!!!"

 
             
 
     
   
Sargento Lopes e o soldado fantasma
 
   
por Jorge Renato Ruggiero, com informações do Mancuso
 
     
   
000Ano de 1964, pernoite na pérgula da 4.ª Cia de Fuzileiros, sargento Lopes fazendo a chamada. Ele começou em 1800 e alguma coisa e assim por diante até que todos os componentes da companhia que estavam no pernoite respondessem à chamada. No entanto ele continua e chama o soldado número 187. Ninguém responde. Ele insiste e ainda assim ninguém se manifesta. O sargento “briga” com os soldados que já estavam com ar de gozação... aí o sargento “se toca” que 187 não era o número de um soldado e sim o TOTAL dos soldados do pernoite!!!
 
             
 
     
   
Nomes e apelidos
 
   
por Neoclair Ribas, digo, Xerém
 
     
   

000Imagine uma chamada de presentes a uma parada, pernoite ou turma de presos, quand o cabo ou Sargento de Dia for chamando pelos números e os elementos respondendo pelos apelidos, como eram conhecidos: "Xerém", "Poderia", "Sexta-feira", "Gonorréia", "Coroné", "Petulância", "Deca", "Guaraná", "Sabiá", "Da Bahia", "Risco", "Baby", "Barra Suja", "Zales", "Zuza" (barbeiro), "Paina" e outros que agora me fugem à memória, talvez, no decorrer do texto, eu me recorde. Alguns já traziam o apelido da vida civil (Deca, Sabiá, Guaraná, Paina, Zales). Outros o conseguiram ali, devido a fatos acontecidos nos primeiros dias de caserna, e até hoje carregam os apelidos, 40 e poucos anos depois. Eu mesmo, XEREM, até hoje assim sou conhecido e até mesmo minhas filhas e amigos da cidade assim me tratam. Saudade daquele dia em Pirassununga, aguardando o dia do embarque para Brasília, quando de um bate bola Araraquara x Rio Preto e outros, ao receber uma bola , devido à minha limitadíssima habilidade com a redonda (apanhei dela) , ao errar o passe, o PAINA, já quase profissional da Ferroviária gritou: — "Poxa, ô... Xerém, qualé, tá cego?" Cara! Duzentos camaradas  dando risadas e eu puto da vida. Mas como diz o Sábio, quanto mais você fica bravo, mais a coisa cola. E não deu outra! Por causa do sd 2066, Paina (José Nilgerson Barbosa) caía fora o NEOCLAIR  e no lugar, ficava o XEREM. E o PODERIA? (Luiz Carlos Oliver, de Monte Alto)? Rapaz de boa índole, educado, para tudo que precisava falar, pedia licença e dizia "Senhor sargento, eu "poderia" isto, "poderia"  aquilo. Aí, os DECAS e SABIÁS da vida


não perdoaram. Depois de umas duas ou três vezes, saía o OLIVER  e nascia o PODERIA.
000
Um certo e distinto senhor francano, cujo nome vou omitir (mas ele certamente, ao ler, vai homenagear minha Santa Mãezinha) naqueles dias de tensão e apreensão da Revolução de 64, à noite, quando estávamos em alerta, no páteo, o mesmo foi acometido por uma necessidade fisiológica aquosa (xixi) e não dava para sair do páteo. Uns companheiros logo providenciaram uma parede humana e o cidadão ali se desapertou, descarregando no asfalto o líquido que o oprimia. Ficou alí a mini poça para que o asfalto a absorvesse e ninguém falaria mais sobre isso. Ledo engano! No dia seguinte, os componentes da parede humana voltaram ao lugar do desague e lá viram enorme mancha branca, provocada talvez por alguma substância antibiótica muito usada na época para combater certas doenças e desconfortos do trato urinário. (Já se lembraram do AMBRASINTO, né?) Aí meus amigos, as línguas de trapo, os mesmos que  quebraram o galho compondo a parede, racharam o bico de rir e trataram de espalhar aos ares, o belíssimo apelido: GONORRÉIA. E até hoje o distinto senhor quando me encontra nos nossos eventos, esteja quem estiver por perto, grita: — "Xerem, seu safado, diz aí, se for homem, o meu apelido!" E eu, que nunca fujo a um desafio, grito: — "Gonorréia!"  Outros apelidos e outros casos existem. Outra hora, talvez por mais alguém que também resolva participar, informe o fato, a pessoa e o apelido. Se vc souber de algum caso, mande aqui para o  CAUSOS DE CASERNA.